"Quando bem geridos, os animais em parceria com o ecossistema, ajudam a manter ou até melhoram os ciclos da natureza (água e nutrientes), a biodiversidade e o ciclo de carbono, entre outros. "

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Pensa que produz só carne, leite ou lã? Vamos definir o que realmente a pecuária produz!

O mundo rural e as suas paisagens são um excelente exemplo das interações simbióticas que podem existir entre o ser humano e os ecossistemas, através da utilização de sistemas adaptados a cada território com o auxílio dos saberes e tecnologias disponíveis.  

E para o “exterior”, a produção animal (sector fulcral do mundo rural) sempre foi valorizada apenas pelos serviços facilmente valorizáveis (produção de carne, leite, lã, peles…). No entanto, estes produtos não são o único proveito que o setor assegura. Quando bem geridos, os animais em parceria com o ecossistema, ajudam a manter ou até melhoram os ciclos da natureza (água e nutrientes), a biodiversidade e o ciclo de carbono, entre outros.  

Toda essa junção de serviços e a multifuncionalidade de sistemas agro-silvo-pastoris é benéfica para todas as partes, tanto o produtor, como os animais, os ecossistemas e as gerações futuras, e são designados por serviços ecossistémicos. Segundo a FAO (2016), os serviços ecossistémicos caracterizam-se pelos benefícios obtidos pelos serviços prestados por um ecossistema, seja por si mesmo (clima, solo, água…) ou pelos seus intervenientes (fauna, flora…). 

Em 1998, foi também reconhecido pelo conselho de ministros da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económicos) que os serviços ecossistémicos agrícolas (existindo também florestais, urbanos e aquáticos interiores) “formam, enquadram e gerem a paisagem, fornecem mais-valias ambientais como a conservação do solo, a gestão sustentável de recursos naturais renováveis e a preservação da biodiversidade, além de contribuírem para a viabilidade de muitas áreas rurais” (Guiomar, Oliveira, Fernandes e Teiga, 2011).  

A exemplo, levando em consideração valores como preços de mercado, custos de transporte e até custos de mitigação de serviços, em 2001 foram calculados os valores económicos de uma produção florestal, em Portugal Continental. Percebeu-se que utilizando a produção animal como um serviço ecossistémico pelo pisoteio e exploração dos animais que também se alimentam de produtos da floresta, e somando a adubação natural que proporcionam, ajudam a que haja benefícios em relação à captação de carbono, proteção do solo e dos recursos aquáticos e manutenção da biodiversidade. Ou seja, utilizando a produção animal e os seus benefícios, estes representariam 23% dos ganhos dessa produção florestal (Mendes, Feliciano, Tavares e Dias 2004). 

Tendo isto em conta pode perceber-se então que a produção animal presta serviços que vão muito para além da produção de bens materiais, tais como a interação direta com ecossistemas através do pastoreio, exploração, pisoteio e produção de fezes e urina e até as suas movimentações, como respostas a variações de climas ou disponibilidade de recursos. 

Existe também uma vertente cultural dos serviços ecossistémicos da produção animal, relacionada com benefícios não-materiais como atividades de recreação e lazer, enriquecimento espiritual, e até, mais ligado à parte de saúde, como terapia e para melhoramentos cognitivos em pessoas com problemas mentais e cognitivos. 

Autor: João Caçador – Engenheiro Zootécnico
 

Guiomar, N., Oliveira, N. G., Fernandes, J. P.A. & Teiga, P. (2011). Gestão de serviços dos ecossistemas em bacias hidrográficas – Volume IV. EPAL – Empresa Portuguesa das Águas Livres, S. A. 

Mendes, A. M. S. C., Feliciano, D., Tavares, M. & Dias, R. (2004). The Portuguese Forest. Country level report delivered to the EFFE Project, Evaluating Financing of Forestry in Europe. Faculdade de Economia e Gestão, Universidade Católica Portuguesa, Porto. 

FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) (2016). The contributions of livestock species and breeds to ecosystem services. Ecosystem Services and Biodiversity. 

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